sábado, 12 de março de 2016

Nada de Mau Pode Acontecer (Nothing Bad Can Happen) 2013

Enviado Por Nossa Querida Irmã Zira


PORTUGAL E ESPAÑOL

O jovem Tore busca em Hamburgo uma nova vida entre um grupo religioso chamado The Jesus Freaks. Quando ele encontra por acaso uma família e é ajudado por ela a reparar seu carro, acredita que tudo aconteceu por um milagre celestial. Ele começa uma amizade com o pai da família, Benno. Logo, decide morar com eles, sem saber que a crueldade virá de lá. Fiel à sua crença religiosa, Tore permanece na casa, embora seja frequentemente atacado por Benno, numa violência crescente.
Tore precisa lutar contra o tormento com as suas próprias armas. Assim, uma luta perigosa entre as ações libidinosas e o altruísmo começa.



Pense num filme que consiga igualar o nível "Dançando no Escuro" de crueldade... Pense num enredo que refaça de maneira atual o périplo de Jesus Cristo... Pense num garoto que tem como única arma num mundo todo feito contra ele sua própria bondade... Para onde foi o Mal numa sociedade em que já não é possível enunciá-lo? E o Bem? Tem algum valor além de si para si mesmo? "Nada de mau pode acontecer" é um filme incômodo por vários motivos: Tore é um garoto ingênuo que faz parte de uma comunidade cristã punk denominada "Fanáticos por Jesus". Ele crê. Em Deus. Nos homens. Em si. Mas sua fé não basta. Nem seu amor. Muito menos sua esperança. É um filme duro. Desesperançado e desesperado. A bondade de Tore torna-se um sintoma, uma doença, um vírus. Todos o testam. Como uma espécie de Jó hiper-contemporâneo. Resistente à toda dor e sofrimento. Mas por quê? Pra quê? Pra quem? Num mundo despido de significado, tudo torna-se vazio, repetitivo. Tore torna-se um simulacro de algo que nem mesmo entende. E isso só reforça seu caráter estoico. O bem em Tore só reforça, reafirma e engrandece o mal no outro. Ele tudo aceita. Essa é sua provocação. Sua provação. Seu calcanhar de Aquiles e sua força de Sansão. Tudo é bíblico. Uma babilônia. Sodoma e Gomorra. Um apocalipse minimalista e por isso mesmo mais cruel e dolorido.
Baudrillard escreve no livro "A Transparência do Mal" que "todo aquele que expurga sua parte maldita assina sua sentença de morte". Sim. O destino de Tore já está traçado. Não há saída possível. Tore não se confronta com o outro, mas consigo mesmo. Mas de certa forma Tore é uma armadilha para o outro.
"Cada um é o destino do outro, e sem dúvida o destino secreto de cada um é destruir o outro (ou de seduzi-lo), não por maldição ou por qualquer outra pulsão de morte, mas por sua própria destinação vital".
Essa frase de Baudrillar resume bem o filme. Que de maneira nenhuma se mostra maniqueísta apesar de um tema que teria todos os potenciais para cair nisso. Pelo contrário. A diretora Katrin Gebbe em seu filme de estreia faz uma provocação daquelas... utilizando-se de uma estética quase documental guarda o derradeiro soco no estômago para quando o filme termina ao finalizar com um "baseado em fatos reais".
Mas o filme não seria o mesmo sem a atuação epifânica de Julius Feldmeier, ator que interpreta Tore. Ele é a alma, e sobretudo, o corpo do filme.
Recomendo só para os muito fortes.

(Mateus Barbassa)

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