sexta-feira, 4 de agosto de 2017

As Filhas de Chiquita - 2006

    

Há 28 anos, no segundo domingo de outubro, a bicentenária procissão do Círio de Nazaré – maior romaria católica do Brasil e uma das maiores do mundo – é obrigada a conviver com a Festa da Chiquita, o mais tradicional encontro gay da Amazônia que, contra tudo e contra todos, ocorre no mesmo dia, na mesma hora e na mesma rua. São dois milhões de católicos fervorosos de um lado e alguns milhares de homossexuais do outro. Em 2004, o IPHAN incluiu a Festa da Chiquita no processo de tombamento do Círio como patrimônio imaterial da humanidade, dando início a uma grande polêmica: afinal, a festa da Chiquita faz parte do Círio?

Realizado de forma totalmente independente entre 2002 e 2005, As Filhas de Chiquita apresenta de forma objetiva – são apenas 50 minutos de projeção – um acontecimento tão insólito quanto naturalmente brasileiro. Em Belém, capital do Pará, durante a segunda semana de outubro, acontece o Círio de Nazaré, uma bicentenária procissão católica reconhecida como a maior do Brasil e uma das mais expressivas de todo o mundo. Esse trajeto, que geralmente é realizado no segundo domingo do mês, passa por uma das principais praças da cidade – lugar que, no mesmo dia e horário, vira palco da Festa da Chiquita, um conglomerado gay em espaço público que desperta, a cada ano com mais força, a atenção dos moradores e turistas de toda a cidade e além. O foco deste filme é mostrar como é possível 2 milhões de religiosos fervorosos conviverem lado a lado com 400 mil homossexuais, todos em busca de algum tipo específico de purificação e alívio. Essa mistura gerou uma forte polêmica quando o IPHAN incluiu, em 2004, a Festa da Chiquita no processo de tombamento do Círio como patrimônio imaterial da humanidade. Afinal, ambos são eventos distintos ou partes de um todo muito maior?

A estrutura de As Filhas da Chiquita é bastante convencional, e o charme do projeto está justamente nas vozes que temos oportunidade de conferir. Se por um lado temos o pároco e a senhora carola que acreditam piamente na separação destas partes, afirmando absurdos como “um gay é pior do que um bandido, pois este erra uma vez e se arrepende, enquanto que o homossexual erra e segue errando, sem arrependimento, e por isso não é digno de perdão”, conhecemos também o senhor heterossexual que prega o amor acima de tudo, feliz com sua namorada de 70 anos e seguindo a linha “viva e deixe viver”. Há ainda as travestis, os gays, os ativistas, os que se montam, se produzem e atuam nos bastidores para que a Festa da Chiquita, mesmo com tanta controvérsia, siga acontecendo e crescendo, ano após ano, conquistando apoiadores e admiradores. Os três lados se fazem presente: os contra, os a favor e os que não se importam. A se lamentar apenas o pouco aprofundamento nessa discussão. O formato reduzido de tempo, provavelmente, seja o culpado por essa edição mais “enxuta”.

Selecionado para diversos festivais por todo o país e no exterior desde a sua estreia, que aconteceu no Festival do Rio de 2006, As Filhas da Chiquita ganhou uma menção honrosa do júri internacional como Melhor Filme Brasileiro no Mix Brasil, além de ter sido escolhido também como Melhor Filme pelo público na Mostra Amazônica do Filme Etnográfico. Estes reconhecimentos pontuam com eficiência o trabalho da diretora Priscilla Brasil, que carrega no nome seu maior mérito: revelar facetas desse país que muitas vezes ficam restritas a apenas alguns grupos limitados. Curioso e pertinente, é uma obra que poderia ser mais desenvolvida, mas que ainda assim mostra sua força, mesmo que num discurso econômico e limitado.





Um comentário:

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