quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

The Death and Life of Marsha P. Johnson (A Vida e Morte de Marsha P. Johnson) 2017

    

A activista Victoria Cruz está prestes a reformar-se como conselheira em casos de violação e violência do Anti-Violence Project, uma organização nova-iorquina dedicada a ajudar e a defender os interesses de pessoas LGBTQIA. Antes de "arrumar as botas", porém, quer perceber ao certo o que aconteceu, em 1992, a Marsha P. Johnson, alguém que nunca chegou a conhecer, apesar de terem sido contemporâneas. Johnson, descrita como activista transgénero, drag queen, prostituta, modelo de Andy Warhol, entre outras actividades, foi, ao lado de Sylvia Rivera – que foi amiga de Cruz – uma das faces mais importantes das revoltas de Stonewall, em 1969, que serviram de pontapé de partida para os direitos civis homossexuais. Mesmo assim, nem sempre têm o devido reconhecimento. Por exemplo, quando em 2015 o alemão Roland Emmerich, o homem responsável por Dia da Independência, lançou um filme homónimo sobre Stonewall, decidiu focá-lo num protagonista branco e gay, quase o oposto das duas activistas.

The Death and Life of Marsha P. Johnson, o documentário de David France, acompanha Victoria Cruz a andar por Nova Iorque a investigar o caso – e a chamar a Marsha P. Johnson “a Rosa Parks do movimento LGBT”. France, que, como jornalista, acompanhou a crise da SIDA no início dos anos 1980 e em 2012 transformou isso num documentário chamado How to Survive a Plague, conta a história de Marsha P. Johnson, de Sylvia Rivera, que morreu em 2002, e de Victoria Cruz, com imagens antigas e novas e a mostrar a personalidade colorida e divertida de todas elas. Também se foca em Islan Nettles, uma jovem transgénero de 21 anos que foi assassinada em 2013 por um homem que alegou que ela o tinha enganado em relação ao seu género, como tantas e tantas pessoas fazem, uma defesa que ainda hoje é aceite em tribunal. O acompanhamento do julgamento, em 2016, de James Dixon, o assassino, e a sentença relativamente curta que recebeu, bem como os protestos que esta gerou, também são uma parte importante do documentário.

O passado e o presente e a forma como pessoas transgénero são marginalizadas, tanto pela sociedade em geral como por uma parte da comunidade LGBTQIA, que é frequentemente acusada de se cingir ao “G” e esquecer o “T” do acrónimo, é uma luta que fez parte do discurso público de Sylvia Rivera pós-Stonewall. Em vídeos antigos, vemo-la a salientar que muitas das conquistas foram para pessoas de classe média e não para "pessoas da rua" como ela – que nos anos 1990 chegou a ser sem abrigo em Nova Iorque, até ter sido expulsa do sítio onde vivia – e a levou a distanciar-se do movimento que tinha ajudado a fundar.

A morte de Marsha P. Johnson nunca foi tratada com grande importância por parte das autoridades. Ela apareceu a boiar no rio Hudson em 1992, uma morte que acabou por ser declarada suicídio. Só que toda a gente que a rodeava duvidou dessa teoria, tendo ela feito planos para sair à noite com uma amiga uma das últimas vezes que foi vista e tendo expressado medo de que a máfia nova-iorquina, que controlava os clubes gay como o Stonewall Inn, estivesse no encalço dela. Não era só paranóia, o documentário mostra, já que Randy Wicker, com quem Johnson vivia em Hoboken, Nova Jérsia, e alguém que Victoria Cruz visita no filme, estava envolto numa campanha pública para retirar a máfia do controlo da parte de Christopher Street (onde ficava o Stonewall e em cujo pontão Rivera viveu), da parada pride nova-iorquina. E chegou a haver ameaças.

O filme não responde com certezas às questões sobre o assunto. Nem isso seria assim tão fácil. Toda a gente que tenha estado na polícia de Nova Iorque na altura do homicídio recusa-se a ajudar Victoria e a falar sobre o passado. O documentário dá muito espaço a vozes de pessoas transgénero que falam sobre como casos destes, sejam em 1992, 2013, ou em qualquer outra altura – há infelizmente muitos – são desvalorizados, ignorados ou esquecidos, com os média a focarem-se na narrativa de “um homem vestido de mulher” e frequentemente os culpados a fugirem à justiça. Este caso é investigado por alguém que não tem formação na área, que quer justiça para Marsha porque mais ninguém quer saber.

Em tempos recentes, tem-se assistido a uma crescente consciência na preocupação em usar pronomes e termos correctos para as diferentes identidades de género fora daquilo que é binário. Mas, na altura de Marsha, era possível que não existisse ainda o termo correcto para a designar. A associação que Marsha e Sylvia começaram em 1970, a STAR, Street Transvestites Action Revolutionaries, para “pessoas da rua”, usava o equivalente ao português “travesti” para se referir a elas, e chegou a ter uma casa para albergar pessoas sem abrigo e fugidas de casa – o papel de madrinha e mentora de pessoas foi algo que Marsha manteve até à morte.

Ainda assim, Marsha é frequentemente descrita como drag queen e pessoa transgénero, mesmo que, num vídeo antigo que aparece no filme, Johnson parecer concordar quando um homem a descreve como alguém fluido, que num dia sai à rua como homem e noutro como mulher. O filme trata o assunto com respeito, e mostra também Victoria, que é ela própria transgénero, a falar com a família de Marsha, a quem pede ajuda para requerir acesso ao relatório oficial da morte dela, sendo que aí há pessoas que se referem a ela como “ele”.

Mesmo que exista cada vez mais atenção às palavras e pronomes correctos que se devem usar para designar alguém, e que existam pessoas transgénero com uma visibilidade que Marsha P. Johnson nunca teve, de Laverne Cox, a actriz de Orange is the New Black, às irmãs Wachowski, que realizaram Matrix e anos depois se assumiram ambas como transgénero, passando por séries como Transparent, as pessoas transgénero são uma parte da população que continua a ser descriminada. Como tal, o documentário nunca tira conclusões complacentes de que tudo melhorou imensamente. Ainda para mais, o documentário estreia-se no dia a seguir a Jeff Sessions, o actual Procurador-Geral dos Estados Unidos, ter determinado formalmente, num memorando enviado a todos os procuradores federais, que a proibição de discriminação no trabalho em função sexo prevista no Título VII de uma lei federal de 1964 sobre direitos civis se aplica apenas a homens e mulheres cisgénero e não a pessoas transgénero, invertendo a interpretação seguida pela administração Obama.


2 comentários:

  1. Que resumo! Maravilhoso!!! Compartilhe!!!

    ResponderExcluir
  2. Parabéns pelo site! Só mudaria a música de fundo do site por algo como The Irrepressibles, que é pura beleza. No mais, sucesso e longa vida!

    ResponderExcluir

Todos tem direito a uma opinião mas lembre-se...
O direito de um termina onde
começa o direito do outro!